Entenda o caso Ana Clara e a ligação com Flávio Bolsonaro

Menina de 5 anos foi morta por um tiro de fuzil em 2021, enquanto brincava perto de casa, em Niterói. Flávio Bolsonaro integrou a defesa do policial acusado e tentou reverter a decisão que determinou seu julgamento. Cinco anos depois, o PM permanece em liberdade e ainda não foi julgado

© Getty – Reprodução / por Notícias ao Minuto / Por srs

Política / Ana Clara e Flavio Bolsonaro

Mais de cinco anos depois da morte de Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos, o policial militar acusado de disparar o tiro que atingiu a criança continua sem julgamento. Bruno Dias Delaroli, que responde ao processo em liberdade, teve o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) entre seus advogados de defesa.

Em 2024, Flávio participou de um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou que o policial fosse levado a júri popular. O pedido foi rejeitado, mas, até outubro de 2026, o julgamento ainda não aconteceu.

O caso voltou a repercutir após o debate presidencial de domingo (18), quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou Flávio sobre sua atuação na defesa do militar.

Ana Clara foi morta enquanto brincava perto de casa

Ana Clara Gomes Machado morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A menina estava perto de casa, brincando com o irmão de 2 anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação da Polícia Militar.

Ela foi socorrida e encaminhada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou o policial Bruno Dias Delaroli por homicídio qualificado.

Segundo a acusação, o PM disparou em direção a uma área residencial, assumindo o risco de atingir moradores.

A Promotoria sustenta que não havia confronto armado no local e que os policiais continuaram atirando mesmo depois de moradores alertarem sobre a presença de pessoas na região.

O militar nega ter provocado a morte da criança e afirma que os disparos aconteceram durante uma troca de tiros com criminosos.

Flávio Bolsonaro entrou na defesa do policial em 2024

A atuação de Flávio Bolsonaro no processo começou a ser registrada em 2024, quando o caso já havia passado pelas primeiras instâncias da Justiça.

Em novembro de 2021, a Justiça determinou que Bruno Dias Delaroli fosse submetido ao Tribunal do Júri. A decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em março de 2022.

A defesa recorreu ao STJ, e Flávio passou a integrar a equipe de advogados do policial.

O nome do senador aparece como o primeiro entre cinco defensores relacionados em um acórdão de abril de 2024, conforme documentos judiciais citados pela Folha de S.Paulo.

Os advogados argumentaram que não existiam provas suficientes para atribuir ao policial a intenção de matar e questionaram a preservação do local do crime.

O STJ rejeitou o recurso por três votos a dois, mantendo a determinação de julgamento pelo Tribunal do Júri.

Posteriormente, a defesa também apresentou recursos ao Supremo Tribunal Federal (STF), sem conseguir reverter a decisão.

Mais de cinco anos depois, acusado continua sem julgamento

Bruno Dias Delaroli chegou a ser preso em 2021, mas teve a prisão preventiva revogada em novembro daquele ano.

Desde então, responde ao processo em liberdade, submetido a medidas cautelares determinadas pela Justiça.

Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a decisão de levar o policial ao Tribunal do Júri, depois do encerramento das possibilidades de recurso contra esse encaminhamento.

Apesar disso, o julgamento ainda não foi realizado.

Segundo a Folha de S.Paulo, o júri está previsto para o início de 2027, aproximadamente seis anos depois da morte de Ana Clara.

O policial permanece na condição de réu e não foi condenado criminalmente pelo caso.

Flávio também concedeu medalha a policial depois ligado à milícia

Além da atuação na defesa de Bruno Dias Delaroli, outro episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e integrantes da Polícia Militar do Rio voltou a ser lembrado durante a campanha eleitoral.

Quando era deputado estadual, Flávio propôs a concessão da Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao então capitão do Bope Adriano da Nóbrega.

Adriano foi posteriormente apontado pelas autoridades como líder da milícia conhecida como Escritório do Crime e investigado por envolvimento em atividades criminosas. Ele morreu durante uma operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020.

A homenagem a Adriano não tem relação direta com a morte de Ana Clara, e ele não é o policial acusado pelo disparo que matou a menina.

Em agosto de 2026, durante uma entrevista ao Jornal Nacional, Flávio voltou a defender a condecoração, afirmando que Adriano era considerado um policial exemplar na época da homenagem.

Lula questionou defesa do policial durante debate

O caso Ana Clara entrou na discussão entre Lula e Flávio Bolsonaro no debate promovido pela Band, no domingo (18).

Durante uma troca de acusações sobre criminalidade, Lula mencionou a atuação do adversário na defesa do policial.

“Esse assassino que você não deixou ser preso, que matou uma criança de 5 anos, votou em você?”, questionou o presidente.

Flávio respondeu defendendo a atuação dos advogados no sistema de Justiça.

“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento e você já condenou o cara”, afirmou o senador.

O processo permanece aguardando a realização do Tribunal do Júri, que deverá decidir se Bruno Dias Delaroli é criminalmente responsável pela morte de Ana Clara.

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