Flávio e Tarcísio espalham vídeo falso sobre ato pró-Lula; TSE reage

Candidato à Presidência e governador de São Paulo compartilharam imagens que associavam falsamente uma jovem supostamente consumindo cocaína à manifestação na Avenida Paulista. O vídeo já circulava na internet meses antes do protesto. A Justiça Eleitoral determinou que Flávio e outros aliados retirassem as publicações.

© Getty / por Notícias ao Minuto / Por srs

Política / TARCÍSIO-FREITAS

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e outros aliados como Flávio Marçal compartilharam nas redes sociais um vídeo que associava falsamente uma jovem supostamente consumindo cocaína à manifestação em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizada no domingo (11), na Avenida Paulista, em São Paulo.

A gravação, no entanto, já circulava na internet meses antes do protesto. Mesmo assim, foi utilizada em publicações que apresentavam o suposto consumo de drogas como uma característica dos participantes da mobilização pró-Lula.

A divulgação das imagens levou a campanha petista a recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na segunda-feira (12), o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que Flávio Bolsonaro e outros aliados retirassem as publicações de suas redes sociais no prazo de 24 horas, a partir da intimação.

Bellizze falou que pode ter ocorrido “grave manipulação por descontextualização”. “Essa forma de apresentação falsa e manipulada dos fatos, mesclando acontecimentos reais e situações que de fato não ocorreram é extremamente deletéria e pode caracterizar, como no caso dos autos, grave manipulação por descontextualização: a reutilização de imagem preexistente, associada a evento posterior, para conferir aparência de prova a uma afirmação sobre esse evento. A gravidade é acentuada, em tese, quando a imagem é combinada com afirmações generalizantes sobre consumo de drogas e com apelo eleitoral explícito”, afirmou

Vídeo já circulava na internet desde junho

Segundo apuração da Folha de S.Paulo, a gravação mostra uma jovem de cabelos vermelhos levando um cartão em direção ao nariz, em uma cena que sugere o consumo de uma substância.

A imagem foi divulgada no canal de WhatsApp “Tropa do Flávio”, criado pela equipe do candidato do PL para mobilizar apoiadores durante o segundo turno das eleições presidenciais.

A publicação trazia a legenda: “Militantes usando substâncias supostamente ilícitas em manifestação”.

A Folha, porém, identificou registros da mesma gravação circulando em páginas argentinas nas redes sociais pelo menos desde junho, quatro meses antes da manifestação na Avenida Paulista.

O vídeo também foi publicado no X em 10 de outubro, um dia antes do ato, por uma conta associada ao Chile.

Portanto, a gravação não poderia ter sido feita durante a manifestação pró-Lula de domingo.

Tarcísio também divulgou imagens e não explicou a origem
O governador de São Paulo também compartilhou a gravação no Instagram, em uma publicação que contrapôs imagens de brasileiros vestidos de verde e amarelo a cenas classificadas por ele como vandalismo, depredação e intolerância.

Questionado pela imprensa sobre o uso de imagens que não correspondiam à manifestação, Tarcísio não explicou por que a gravação havia sido incluída no vídeo. O governador mencionou episódios de danos e pichações registrados no Metrô de São Paulo.

Embora tenham sido registrados danos em estações de metrô após o protesto, essas ocorrências não comprovam qualquer relação entre a jovem mostrada na gravação e o ato na Avenida Paulista.

O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) também incentivou a circulação das imagens em um áudio divulgado no canal “Tropa do Flávio”.

“Estou vendo essa depredação, esse vandalismo, usando substâncias ilícitas, acho que esse conteúdo pode ser o ‘Ele Não’ de 2026. Vamos divulgar bastante essa sujeira que eles aprontaram, usem em redes sociais, disparem nos seus grupos de WhatsApp, listas de transmissão”, afirmou.

Posteriormente, Gayer alegou que não havia afirmado expressamente que o vídeo da jovem tinha sido gravado na Paulista.

A gravação também foi compartilhada por outros aliados de Flávio Bolsonaro, incluindo o influenciador Pablo Marçal e o deputado federal eleito Rony Gabriel.

TSE determina retirada e aponta risco de manipulação eleitoral
Na decisão, o ministro Marco Aurélio Bellizze destacou que utilizar imagens anteriores a um acontecimento, sem esclarecer sua origem, pode levar o público a acreditar que elas representam fatos ocorridos naquele evento.

Para o magistrado, a prática pode configurar uma forma grave de manipulação eleitoral, especialmente quando acompanhada de acusações sobre consumo de drogas e mensagens com finalidade eleitoral.

Além de Flávio Bolsonaro, a ordem de retirada alcançou publicações de Carlos Bolsonaro, Pablo Marçal e Rony Gabriel.

Tarcísio de Freitas, embora também tenha compartilhado a gravação, não foi incluído na determinação judicial.

A decisão é provisória e ainda deverá ser analisada pelo plenário do TSE.

Campanha de Flávio afirma que não divulga fake news
Em nota enviada à Folha, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que o canal “Tropa do Flávio” é um instrumento de comunicação e mobilização digital registrado no TSE e que respeita a legislação eleitoral.

A equipe declarou ainda que, “ao contrário do PT, não propaga fake news”.

A assessoria, entretanto, não respondeu aos questionamentos sobre a origem da gravação da jovem supostamente consumindo drogas. A publicação foi apagada do canal depois que a reportagem procurou os responsáveis.

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